O que você faria se fosse diagnosticada com câncer de mama aos 35 anos? E até onde iria para salvar sua vida? Para Jakeane não existe limites. E foi pensando assim que sua história de tristeza e angústia se transformou em inspiração e esperança

Nem todo mundo que entra em uma batalha sai vencedor, não é mesmo? Porém, muitas vezes, apenas o ato de lutar pelo que se acredita, superando os seus limites e medo, já é uma vitória, e das grandes. Enfrentar um câncer de peito aberto, com um sorriso e amor no coração não é fácil para ninguém, imagine receber o diagnóstico de câncer de mama durante a gestação?

Assim foi com a maranhense Jakeane. Aos 35 anos, grávida do seu segundo filho, ela foi diagnosticada com Carcinoma Ductal Infiltrante, grau 2 (tipo de câncer de mama que representa 80% à 90% dos carcinomas da mama).

Estudante de administração, esposa, irmã, amiga e filha dedicada, ela viu sua vida e sonhos desabarem em questão de segundos.

“Tudo começou em 25 de setembro de 2017, em casa, pós-banho, fazendo meu autoexame. Ao me tocar percebi que ali tinha algo errado, bem na parte debaixo da mama esquerda, aonde era possível sentir somente deitada, ao fazer movimentos ao redor da mama senti uma bolinha. Na hora jamais passou pela minha cabeça que pudesse ser algo sério. No dia seguinte fui em busca de um médico.”

E foi no meio dessa confusão de sentimentos, que Jakeane descobriu que estava grávida do segundo filho. Finalmente seu sonho estava sendo concretizado, e a família estaria completa.

A única coisa que eu esperava era uma gravidez, a qual estava tentando desde início do ano. Três dias antes do atraso menstrual resolvi fazer um teste de gravidez e lá estava um super-mega-positivo. Claro que gritei para o mundo “Estou grávida” e imediatamente a felicidade tomou conta de mim, contei para meu filho e para a família toda.”

Logo em seguida, radiante com a notícia da chegada de mais um bebê, e certa de que não tinha nada, ela procurou um Mastologista.

“Procurei um Mastologista em Teresina, levei a ultrassom e no mesmo dia fiz a mamografia e na sequência a biópsia que sairia o resultado uma semana depois… Nessa semana de aguardo meu corpo foi mudando e quer saber, eu não acreditava que aquela mulher que todos adoravam, que falavam que era a pessoa que mais transmitia alegria por onde passava, que tinha a melhor relação do mundo com todas as pessoas que convivia, pudesse ter um câncer.”

Os exames ficaram prontos mais rápido do que todos imaginavam. Em 3 dias Jakeane estava em um consultório, com seu marido e os resultados em mãos.

“Recebi a biópsia e nem abri, peguei e já entrei direto para sala do médico e supercontente, com meu esposo ao meu lado. A primeira coisa que disse ao médico foi que estava grávida. Ele abriu aquela biópsia lá tinha (CARCINOMA DUCTAL INFILTRANTE, GRAU II) me olhou e eu posso nesse momento ouvir aquelas palavras dele: – agora temos um caso sério, você tem uma câncer de evolução rápida, onde esperar 9 meses para tratar é muito tempo, você entrará em metástase, como não sou obstetra você procure um, interrompa essa gravidez, volte aqui que eu vou tirar sua mama, fazer quimioterapia e radio -, sim, ele usou exatamente essas palavras.”

Foram os minutos mais tensos e apavorantes que ela já tinha vivido. Um misto de medo, raiva, angústia e indignação por tudo que ouviu do médico.

“Aqueles 70 km foram os mais longos da minha vida. Chorei muito me questionando: por que, Deus? Eu só pedi um filho, por que isso está acontecendo comigo? Quando acordei no dia seguinte a única coisa que pensei foi: Deus não está sendo injusto comigo, Ele me deu essa criança e vou em frente, mas tirar meu filho não tiro… Eu estava disposta a arcar com as consequências.”

 Com muito amor e apoio da família, onde encontrou forças para lutar pelo seu sonho e ao mesmo tempo enfrentar o câncer de mama, decidiu marcar uma consulta com outro médico. Ela sabia que a batalha só estava começando……

“No dia 16 de outubro fui hospitalizada com princípio de aborto, e o médico (Obstetra) foi muito teórico, ao contrário daquele mastologista que foi prático e indelicado ao extremo. Ele me disse tive um princípio de aborto e disse que poderiam acontecer duas coisas: ou teria um aborto espontâneo ou iria seguir com gestação de risco. Orientou a procurar ajuda profissional. Ele não me convenceu a fazer o aborto, porém me explicou com muita clareza todo o processo que viria pela frente.”

Mas, como não temos controle de muitas coisas que acontecem em nossas vidas, a maranhense e sua família tiveram que superar mais um obstáculo: a perda do bebê.

“No dia 20 de outubro fui até a maternidade da minha cidade acompanhada de uma enfermeira que amparou minha causa e pediu que eu desse uma chance para ela me levar e conversar com a assistência social sobre meu caso. Conversando com várias pessoas, tive um forte sangramento. Ali mesmo fui hospitalizada para fazer a curetagem, pois tive um aborto espontâneo. Eu estava triste sim, muito, não pelo câncer, pensava a doença eu trato, mas meu filho não queria perdê-lo. Porém, passei a entender que Deus me deu aquele filho só para me mostrar o que estava de ruim dentro de mim, então foi a forma que Ele encontrou de me avisar rapidamente, pois o hormônio gestacional fez com que o nódulo evoluísse rapidamente.”

A jovem não teve tempo para digerir a perda. Precisou enxugar as lágrimas, trancar essa dor em seu coração e lutar pela vida; pelo seu marido, pelo seu filho e principalmente por ela mesma.

“No final de outubro fui para o Sul decidida a buscar outra avaliação. Foi nesse dia que minha vida começou realmente a mudar. Fui a primeira consulta no Hospital Ceonc, em Cascavel-PR, onde fui atendida por um anjo chamado Dr. Fabio Henrique Araujo. Ele escutou todos os detalhes e disse: tirar sua mama? não! Você é jovem, linda, vamos trabalhar a preservação dessa mama, iniciaremos agora seu tratamento. Hoje você fará sua primeira quimioterapia vermelha, sei que ela é tão forte quanto você, após fazer 4 ciclos iremos avaliar se houve redução desse nódulo, acontecendo dessa forma não será necessário retirar a mama, e sim, a retirada do quadrante… e esse cabelo enorme daqui a quinze dias cairá todo, mas não se preocupe, cabelo nasce e quando nascer será mais lindo.”

“Sobre o cabelo, era o que mais amava em mim, aqueles longos cachos que viviam soltos… Ali eu estava acompanhada do meu esposo e de minha cunhada e os olhos deles mostravam mais medo do que os meus.  A minha cunhada falou que não precisava fazer hoje, se quiser ir para casa pensar, depois voltamos… Olhei para eles e diante de tudo que eu já havia visto naquele grande Centro Oncológico em poucas horas que eu estava ali, falei:

“Sabe quando você acha que está no fundo do poço? Agora eu tenho a certeza que eu não estou dentro, e sim na beirada de fora, e cabe a mim, pular dentro dele ou me afastar e dali, eu decidi que queria viver: pelo meu filho, pela minha família e por todas aquelas pessoas que acreditavam em mim”.

E foi assim que Jakeane decidiu “não pular para dentro do poço”, seguiu o protocolo e iniciou 4 sessões de quimioterapia vermelha, e duas sessões de quimioterapia branca.

O nódulo reduziu, mas ainda havia a cirurgia. Sabe aquela insegurança do começo do diagnóstico? Desapareceu. A maranhense seguiu firme e marcou a cirurgia para fevereiro de 2018. Resultado? Um sucesso!

A mama foi preservada e retirada somente quadrantectomia. E foi assim o tratamento: mais sessões de quimioterapia e 30 sessões de radioterapia.

Pensou que essa foi a parte mais difícil do tratamento? Encarar as sessões de quimioterapia, radioterapia e ir ao hospital foi tranquilo, difícil mesmo é ficar longe de sua rotina, sua casa, trabalho e marido.

A parte mais difícil no tratamento que tive que enfrentar foi optar por ficar lá no Sul, pois minha residência e trabalho eram no Maranhão. Meu esposo ficou 10 dias comigo e voltou para nossa cidade para dar entrada na licença para me acompanhar, pois o mesmo é funcionário publico. Imediatamente me afastei pela previdência social, tivemos que ficar durante 2 meses separados e meu filho desde o primeiro momento ficou comigo, sempre me acompanhou em tudo, era conhecido até no hospital, ele é uma criança muito inteligente e apesar de pequeno entendeu que a mãe tinha uma doença mais que iria ficar bem, ele falava: minha mãe não é doente ela trata um câncer de mama.”

Foi então que começaram os efeitos colaterais do tratamento, e a queda de cabelo foi o ponto para que ela se olhasse no espelho e entendesse que era só uma fase difícil.

 “Mandei raspar a cabeça, e ao me olhar no espelho entendi que aquilo era só uma fase difícil, que uma hora iria passar, no fundo só tinha medo que meu marido me rejeitasse porque ele não estava ali vendo o processo com seus próprios olhos. Mas, apesar da insegurança resolvi me encarar e encarei as redes sociais, encarei o mundo que havia ali na minha frente e jamais deixei que as pessoas sentissem pena de mim, ou que ao menos me tratassem assim, com pena, fiz todos ao meu redor entenderem que eu estava viva e bem. Segui careca, alegre, feliz. Me divertia, ia a restaurantes, até festas. Abusava de lenços e as vezes sai até sem nada na cabeça, me maquiava e me arrumava e as pessoas entediam que a beleza estava dentro de mim e não naquele cabelo comprido que eu tinha.”

“Quando eu e meu marido reencontramos, minhas inseguranças acabaram. Ele sempre me tratou normalmente, alugamos uma casa para nós no Sul onde ficaríamos até o final do tratamento. Tive um apoio muito grande da minha família e dos meus amigos e dos novos amigos que fiz e da nova família que construí, conheci e acompanhei diversos casos, vários tipos de canceres, pessoas com depressão onde pude ajudar, pessoas que infelizmente eu perdi ali, pude entender o intimo de cada um que tive a oportunidade de conviver e de alguma forma está ali me  fazia feliz pois eu tinha a oportunidade de levar um pouco de alegria para algumas pessoas que estavam lá.”

 Mas, depois de todos os obstáculos veio a notícia que Jakeane aguardava há tempos: estava curada:

Só quem passa pela situação para ter noção da emoção que é ouvir essa frase. Eu me vi dirigindo 230 km da cidade que eu me tratava para a cidade qual eu estava residindo: eu gritava, eu chorava, eu agradecia a Deus. Esses foram os 230 km percorrido mais felizes da minha vida.”

  “Fui liberada para voltar para casa e seguindo o novo protocolo que já fazia desde abril/18 que era a quimioterapia oral com uso de Tamoxifeno por 5 anos. Retornei para minha cidade, nossas vidas voltaram ao normal, assumi minha função no trabalho, comecei o acompanhamento pós-tratamento em Teresina-PI com outros maravilhosos médicos e desde julho/18 comecei a fazer atividade física e acompanhamento nutricional.”

  E como tudo nessa vida tem o momento certo, e mesmo ela e sua família acreditando que não seria mais possível, a esperança voltou a habitar seu coração.

“A própria medicina não me proporcionava esse sonho por fazer uso de Tamoxifeno e ter me proporcionado quase uma menopausa precoce por já estar tomando a medicação há 1 ano e 2 meses e não mais ciclo menstrual e por um milagre de Deus em junho deste ano descobri que estava grávida. Atualmente estou com 7 meses de gestação, a qual está evoluindo perfeitamente bem ao contrário do que a medicina aponta”.

O câncer fez com que Jakeane, que antes era uma bomba relógio, a ponto de explodir, com tantas tarefas, como ser mãe, mulher, profissional, a melhor esposa. Ela sempre se cobrou muito, e não aceitava fazer menos que o melhor.

“Sofria muito. A vezes deixava desejar em algumas coisas, o dia para mim era necessário ter 48h e não 24h. Sentia que não dava conta de tudo. O câncer foi meu freio, me mostrou que tudo tem seu tempo, que nem tudo acontece como a gente planeja, que os nossos planos as vezes são diferentes dos planos de Deus, que o dia é para ser vivido cada um na sua vez e que a fé é o que temos de mais importante para carregar dentro de nós.”

“Hoje o que tenho a dizer para quem passa, já passou, e está passando ou acompanha alguém que enfrenta essa luta, fique atenta ao seu corpo, ele por si só fala, mas a gente não dá atenção. O câncer é silencioso e quando é descoberto na fase inicial tem uma grande chance de cura. Procure o médico, seja curioso, achar que está bem, nem sempre quer dizer que lá dentro está tudo bem.”

“A vida me ensinou que quando a gente não tem tempo para cuidar da saúde, uma hora terá para cuidar da doença. O câncer está aí, é a doença do século, não escolhe cara e nem cor. E se você receber um diagnostico olhe para frente e veja que você ainda tem muito para viver, que as tempestades passam. Tenha fé. Acredite em você, se encare, se olhe no espelho e entenda que os médicos estão ali para te curar, mas que você precisa contribuir para isso. Fácil não é e nunca será, mas acredite que você é capaz.”

“Acredite em você, cabelo nasce, cresce, o meu hoje é muito mais bonito, muito diferente do que era, durante anos tive cabelo comprido e hoje me acho um charme de cabelo curto, me sinto mais jovem, mais bonita e mais mulher… Acredite na sua cura, pois a fé move montanhas”.

  • Pode me chamar de Ju. Jornalista, paulistana nata e balzaquiana. Apaixonada pelo comportamento humano e não dispenso um abraço demorado. Acho que toda história (boa ou não) merece ser contada. Amorosa, sonhadora e chorona. Quer me ganhar? Basta falar sobre o amor.

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