Aos 30 anos e no sexto mês de gravidez, Juliana Moro foi diagnosticada com melanoma maligno nível III

Nem todo mundo que entra em uma batalha sai vencedor. Porém, muitas vezes, apenas o ato de lutar pelo que se acredita, superando os seus limites e medo, já é uma vitória. Enfrentar um câncer de peito aberto, com um sorriso e amor no coração não é fácil para ninguém, imagine receber o diagnóstico grávida de seis meses?

Aos 30 anos e grávida do seu primeiro filho, Juliana Moro descobriu o melanoma maligno nível III. Artista Plástica, esposa, irmã, amiga e filha dedicada, ela viu sua vida virar de ponta cabeça em questão de segundos.

“Fiquei em choque! Estava grávida de 6 meses e de imediato o que passou pela minha cabeça foi: será que essa doença pode afetar minha bebê?! Porque estou recebendo um diagnóstico desse bem durante a minha gestação?!”

“Minha descoberta do câncer aconteceu em dezembro de 2013, quando estava grávida de 6 meses. Senti um caroço, como se fosse uma espinha no couro cabeludo. Esse caroço aumentava e diminuía constantemente. Com o passar do tempo esse caroço começou a coçar e incomodar bastante. Fui ao dermatologista e a médica solicitou uma biópsia, mas me acalmou dizendo que provavelmente era uma verruga. Depois de algumas semanas veio o resultado – melanoma maligno nível III. Nem a dermatologista sabia como me dar essa notícia! Apenas me disse que era extremamente grave e de imediato fui encaminhada ao hospital AC Camargo para uma nova avaliação. Lá eles repetiram a biópsia com uma margem maior do local e a confirmação veio conforme o primeiro exame – melanoma maligno nível III. Fiquei em choque! Nunca tinha escutado falar em Melanoma e muito menos o que ele poderia me causar!! Meu maior medo era que essa doença chegasse até minha bebê e muitas dúvidas rondavam minha cabeça. Foi então que minha jornada começou”.

“Realizei diversos exames para saber se estava tudo bem com o restante do corpo e com a bebê. Os oncologistas se reuniram com minha obstetra e concluíram que o ideal seria realizar o parto assim que completasse 7 meses de gestação. A opção de realizar a cirurgia com a bebê no ventre não foi aconselhável pelos riscos que poderia acontecer, e nem eu queria isso, não achava justo roubar a magia da gestação por causa de uma doença tão cruel. Resolvi então tomar a minha decisão de segurar a gestação até o oitavo mês! Os médicos, meu marido e meus pais não gostaram nada da ideia, mas tiveram que aceitar minha escolha e assim foi”.

Medo, dor, anseios e insegurança são sentimentos que vêm a tona, por conta da fragilidade e impotência que a doença traz na vida de qualquer pessoa diagnosticada com câncer. Mas Juliana passou por cima de todos os seus medos e decidiu encarar o câncer com muita fé e otimismo pelo seu marido e filha.

“No dia 04 de fevereiro de 2014 minha filha nasceu! Foi um dia de grande emoção! A única coisa que me preocupava era de saber se ela estava bem de saúde. Minha pequenina seguiu para a UTI Neo Natal e permaneceu por lá por 7 dias. Foi a semana mais longa de toda minha vida! Foram dias de muita dor e muita angústia. Passava o dia inteiro no hospital realizando exames preparatórios para minha cirurgia e acompanhando a evolução da Maria Clara na UTI Neo Natal. Podia segurá-la no colo, amamenta-la…mas sempre em volta de um monte de fios, cheio de horários e restrições…aquilo tudo era muito pesado! Eu chorava todos os dias! No dia 11 de fevereiro dei entrada no AC Camargo para realizar minha cirurgia e deixei minha mãe responsável por acompanhar a Maria Clara no hospital. A angustia de não estar perto da minha filha era terrível. No dia 12 de fevereiro, data da minha cirurgia a angustia era ainda maior. A insegurança de tudo o que poderia acontecer, o medo do que viria depois e a tristeza e não estar ao lado da minha filha! A coisa que eu mais queria naquela hora era receber a ligação da minha mãe dizendo que a Maria Clara teve alta. Foi então que o telefone tocou e minha mãe me disse – Filha, a Maria Clara teve alta! Já podemos ir para casa! Eu que estava deitada na maca dei um pulo e gritei para o meu marido – vai agora buscar nossa filha que ela vai para casa!!! E como se fosse um presente para me acalmar, na mesma hora, o enfermeiro entrou no quarto e disse – Juliana vamos para o centro cirúrgico? E eu pulei daquela maca sem nenhuma dúvida ou medo, apenas confiante que logo estaria em casa cuidando da minha pequena. A cirurgia demorou mais de 4 horas, mas foi um sucesso. Retiraram o tumor com uma grande margem de segurança, juntamente com alguns linfonodos do pescoço para análise. Voltei para o quarto parecendo uma múmia…rs…A dor era intensa e tinha muita dificuldade de falar e de me alimentar. No dia seguinte o médico passou pelo quarto e perguntou como eu estava. Mesmo com muita dor eu disse – Doutor, estou me sentindo ótima! Já posso ir para casa?E ele como um anjo disse – ok! Vou te liberar logo pra você ficar com sua filha. Cheguei em casa e mesmo com muita dor e restrições, fui correndo para o quarto dela e peguei minha pequetita no colo! Esse foi o melhor presente de todos”, emociona-se Juliana.

A pequena Maria Clara trouxe luz e esperança para a artista plástica. Depois de 15 dias sem poder lavar o rosto, Juliana voltou para o hospital para a retirada do curativo.

“Foi a primeira vez que me vi careca! Foi assustador! Mas a alegria de estar viva e ter superado aquele tormento era maior que tudo. Aos poucos ia me adaptando a nova fase.
Fui encaminhada ao oncologista, o Dr. Milton, especializado em melanoma. O resultado de meus linfonodos estavam livres de neoplasia, mas mesmo assim o médico achou melhor realizar um tratamento preventivo com Interferon. Inicialmente passaria por doses diárias, via venosa por 30 dias e depois partiria para o tratamento 3 vezes por semana com doses intra muscular”.

“Confiei muito no médico e um mês depois da minha cirurgia iniciei o tratamento. Infelizmente tive que parar de amamentar, mas achei melhor fazer a escolha de prevenção do que o medo da doença retornar. Não podia imaginar, mas este foi o tratamento mais difícil de todos que passei até hoje. Tive todos os efeitos colaterais possíveis – dores fortíssimas pelo corpo, dor de cabeça constante, febre diária, vómito, sangramento nasal, enjoo, calafrios, ora diarreia ora constipação, perda do paladar, palpitações e diversas reações cutâneas. Depois de longos 6 meses o médico suspendeu meu tratamento por toxidade. Tive finalmente um descanso e pude curtir um pouco minha licença maternidade.”

No final do ano de 2014 comecei a ter sangramentos junto com as fezes e o médico me solicitou um novo PET CT. Em janeiro de 2015 saiu o resultado – Neoplasia óssea localizada na bacia. Fui submetida a uma biópsia e a confirmação veio depois de uma semana – Metástase de Melanoma. Foi muito difícil de digerir essa informação! Tinha feito tudo o que o médico pediu como forma de prevenção, mas infelizmente a doença havia se espalhado.

Iniciei então o tratamento de imunoterapia com Ipilimumabe. Foram 4 doses e suportei muito bem o tratamento, tendo poucos efeitos colaterais. As dores no local da bacia passaram a me incomodar muito e então fui encaminhada à radioterapia. Realizei 5 sessões diárias, apenas com o intuito de diminuir a dor. No final do tratamento repeti o PET CT e novas metástases surgiram – abdomen, alça do intestino e pescoço. Fui encaminhada então para um novo tratamento, também na área da imunoterapia chamado Nivolumabe. Antes de iniciar o tratamento refiz o PET CT e novas metástases apareceram – 7 ossos e uma no fígado. Rapidamente comecei o tratamento. Confesso que com o passar do tempo, receber a noticia de mais e mais metástases não era fácil, mas uma força muito grande ia se formando dentro de mim.

No começo do mês, como de rotina, realizei uma nova bateria de exames e para minha surpresa tive mais 7 novas metástases ósseas, totalizando 14 (fêmur, tíbias, ombro, braço, várias na bacia, coluna e em duas costelas). Meu oncologista também não ficou feliz com esse resultado, então mudamos a estratégia e agora partirei para a quimioterapia tradicional, com previsão de 6 ciclos inicialmente. Durante toda essa minha luta criei uma página no facebook chamada – Um melanoma em minha vida. Nela, relato os acontecimentos dessa minha jornada contra a doença e as dúvidas e alegrias que vou encontrando pelo caminho. Uma delas, a mais emblemática, foi o convite que recebi para ser a vice-presidente da ONG Melanoma Brasil. O convite veio da fundadora da ONG e hoje minha grande amiga Rebecca Montanheiro, que também teve o diagnóstico de melanoma.

Como era a Juliana antes do diagnóstico e como é a Juliana agora?

“A Juliana antes do diagnóstico é também a Juliana antes da gravidez. Não dá para separar uma coisa da outra. Antes do diagnóstico e da gravidez eu era uma pessoa que trabalhava muito e tinha pouco tempo para os amigos e família. Não conseguia participar dos eventos rotineiros como aniversários, férias prolongadas ou datas comemorativas, estava sempre trabalhando! Fumava muito e sempre que podia tomava uma cerveja para descontrair. A Juliana antes do diagnóstico/maternidade se preocupava muito com a opinião dos outros e com futilidades. A Juliana antes do diagnóstico/maternidade chorava por qualquer coisa e oscilava demais com suas emoções e desejos. A Juliana antigamente se entristecia com facilidade e sofria sem muito motivo. Hoje, me considero uma pessoa muito melhor e muito mais feliz! Em todos os sentidos. Me sinto uma pessoa mais humana, mais calma, mais segura. Hoje me sinto mais amada e mais amável. Me sinto mais forte e muito mais corajosa. Me sinto mais confiante e com uma fé renovada!

“Não existe remédio melhor do que o amor dos familiares e amigos. Isso transforma a vida das pessoas. Se você não sabe dizer em palavras, demostre em atitudes. Ajude nas tarefas diárias, faça pequenos agrados, vibre com as pequenas vitórias e doe a maior positividade que existe dentro de você!”. Esse é o recado que a Juliana More, essa guerreira, quis deixar para as pessoas que têm algum parente ou amigo diagnosticado com câncer.

“Não é fácil lidar com essas reviravoltas que a vida dá, ainda mais quando se trata da nossa saúde e de uma doença tão cruel e feroz como é o câncer, mas nunca perdi a fé e nunca desisti de viver!! Vou ter que encarar pela segunda vez a perda dos cabelos, vou ter que enfrentar uma fase muito difícil de efeitos colaterais, mas sigo lutando diariamente para ser feliz e aproveitar tudo que me for permitido!.”

  • Pode me chamar de Ju. Jornalista, paulistana nata e balzaquiana. Apaixonada pelo comportamento humano e não dispenso um abraço demorado. Acho que toda história (boa ou não) merece ser contada. Amorosa, sonhadora e chorona. Quer me ganhar? Basta falar sobre o amor.

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