Páginas da Vida - De Paciente Para Paciente

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De malas prontas

A mala era grande para uma semana de viagem. Sem saber se iria fazer frio ou calor, fui colocando quase todas as peças do guarda-roupa. Logo eu, que nunca fui de exageros, pecava pelo excesso. Não se tratava de uma viagem qualquer. Era um sonho que estava ultrapassando as fronteiras da América, atravessando o oceano, indo aportar em Portugal, berço da nossa língua. Sempre dei demasiado valor aos autores portugueses. Li de Camões a Saramago e a contemporânea Isabela Figueiredo estava agora misturada a eles nos estandes da Feira do livro de Portugal.
Dois meses antes desse grande dia, no hospital, aguardava o resultado dos exames. Os envelopes pareciam pesar nas mãos. Sem coragem de abri-los, deixei-os com a secretária do médico. Resultado: ter que realizar o quanto antes mais uma cirurgia. Sem coragem de enfrentar a maratona hospitalar novamente, esmoreci. Naquele dia, antes da notícia, estava finalizando um trabalho de pós-graduação. Não tinha força para pensar, e as letras embaralhavam, parecendo dançar sem ritmo. Respirei fundo e continuei a fim de que os pensamentos me levassem para além da sala aonde me encontrava. Foi quando voei alto, ultrapassando, por meio da escrita, aquele momento de dor.
Só assim, consegui entrega-lo para não perder o bimestre. Estava pronta para enfrentar a quinta cirurgia. Tomada por uma vontade de seguir em frente com meus projetos, me internei na manhã de 24 de abril de 2018, acompanhada da minha irmã e fiel escudeira, para realizar mais uma etapa do tratamento. Naquele momento, não sabia o tamanho da cirurgia e como seria a recuperação. Apenas pensei que era necessária sua realização.
Devido às dificuldades pós-operatórias, meus sonhos de escrita ficaram engavetados, esperando a tempestade passar. Não foram dias fáceis. Algumas vezes perdi a paciência, aguardando o sol voltar a brilhar em minha vida. Na manhã seguinte, após ter recebido alta, ao abrir o computador, notei que estava em tempo o convite para a participar da 88 feira do livro, em Lisboa. Sem pensar, confirmei presença.
Mas teria eu condição física e emocional para viajar sozinha, naquele momento? Com medo da resposta, resolvi convidar uma amiga para me acompanhar na travessia. Após convencê-la que seria uma viagem dos sonhos, embora ela não pertencesse ao mundo das letras.
Com tudo organizado, as malas já fechadas na porta, esperando o taxi, recebi um telefonema dela, falando que havia ficado doente e não iria mais. Por alguns minutos, paralisei em frente à grande cratera. Lembrei quando fui a Portugal, anos atrás, e me hospedei em um hotel, em frente à praça Eduardo VII. Alguns autores assinavam seus livros. Fiz um pedido mentalmente. Um dia, talvez pudesse estar entre eles.
Com esse pensamento, venci mais esse obstáculo e pude partir para Portugal. Ao chegar, deixei as coisas no hotel e fui conhecer a tal feira. Chovia muito e fazia frio. Nada típico no mês de junho em Lisboa. Mas mesmo com os pés encharcados, fui tomada por muita emoção, orgulhosa da minha conquista, por não me sentir intrusa de terras tupinambás.
Naquela noite, ao chegar no quarto, olhei para a cama vazia, ao lado da minha, e me deitei nela, a fim de amenizar aquele desapontamento. Pensei no dia seguinte. Seria a minha estreia na feira como autora. Um arrepio me tomou por inteira. Talvez não viesse ninguém ao lançamento. O livro poderia não agradar aos portugueses como tinha agradado aos brasileiros. Sem as respostas, adormeci de toalha na cabeça.
Ao despertar, preparei o que iria levar para a feira em uma mala de rodinhas, a fim de facilitar meu trajeto até o estande da editora. Tinha consciência de que não podia carregar peso. Agradeci por não ter que levar os livros. Imbuída de coragem, abri a janela. A luz invadiu meu quarto, chegando até o espelho, que iluminou meu rosto, adentrando por cada poro de minha pele.
Cheguei com antecedência para organizar o evento. Fui recebida calorosamente por escritores da mesma editora e pelo diretor, que ficou ao meu lado, dando suporte. Prestigiada por muitos que passavam, logo uma fila se formou para ouvir sobre o livro e o projeto social, do qual pertence.
De cima do estande, me chamou a atenção um bebê de boina e calças curtas com suspensórios presos à camisa. Vendo essa imagem, realizei que estava em Portugal. Meu sonho havia se concretizado. O bebê era filho de um português com uma brasileira e representava a união dos dois países, perfeito para aquele momento.
No fim do dia, deitada de atravessado, com corpo sobre as duas camas, senti que tudo estava completo e que eu fazia parte não só de Portugal, mas do mundo. No terceiro dia, participei de um café literário com outros autores. Misturada a eles, me sentindo um pouco portuguesa, percebi como o mundo é pequeno diante de nossos sonhos. Devemos correr atrás deles, mesmo que pedras e barreiras atravessem nosso caminho. E posso garantir que não foram só essas marcas que ultrapassei. É o que vou contar nas próximas páginas da vida.
 

Anna Maria Mello

Anna Maria Mello

Sou Anna Maria Mello, sou escritora, palestrante, colunista e ativista social, engajada em ações de conscientização sobre o câncer de mama. Entre lenços resgatei minha essência e me descobri como autora, dando início a trajetória que compartilho com você agora... www.ammello.com

  • IKCC - International Kidney Cancer Coalition
  • World Ovarian Cancer Day
  • WAPO - World Alliance of Pituitary Organizations
  • The Carcinoid Cancer Foundation
  • Alianza GIST
  • The Life Raft Group

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