Obstipação Intestinal

Obstipação Intestinal

“Um amigo me chamou para cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui.”

Clarice Lispector

 

Quatro horas da madrugada pós-natal, acordo de sobressalto com vozes no que parecia uma discussão. Me levanto para ver o que era e encontro um senhor de mais de 90 anos gemendo de dor com sua esposa também idosa, a tentar aliviar seu sofrimento, num emaranhado de sentimentos entre carinho, preocupação e medo. Sem me importar com o meu sono, sigo para perto para entender como poderia ajudar, converso devagar para acalmá-lo e percebo que suas dores são abdominais, que irradiam para peito num dolorido ciclo de cólica. O abdômen estava rígido, com eco, me pareciam gases que ocupam a cavidade abdominal pressionando órgãos que trazem à tona dor e sensação de desespero.

Ele sofria muito, então me prontifico a levá–lo ao Hospital para medicação e conforto...mas não foi bem o que aconteceu.

Chegamos ao hospital e tive que aguardar uma plantonista resolver me atender para preenchimento de uma ficha, enquanto o aquele velhinho gemia na recepção. Após estar completo o formulário, questiono se já foi avisada a equipe para buscá–lo: Não. Esperamos ainda mais, numa agonia que parecia infinita.

Assim que entrou no consultório, um médico plantonista o examinou e, como se tratava de um idoso previamente tratado para o câncer com radioterapia, a primeira preocupação que surgiu era com uma possível paralisia intestinal. Mas aquele não seria o caso. Era mais “simples” (o que reconfortava), clássico caso de sintoma adverso de um intestino já disfuncional que seguido de duas noites de alimentação, muito diferente de sua rotina, teria trazido à tona uma questão muito comum e convergente de pessoas que passam por complexas e constantes intervenções médicas e medicamentosas como os idosos e portadores de câncer, a obstipação intestinal.

Uma breve pausa explicativa deve ser feita aqui... o intestino acometido por medicamentos ou tratamentos agressivos como a radioterapia pode trazer à tona um mal bastante comum: a constipação intestinal, com  sintomas de desconforto, dores e risco grave à saúde. Associado ao intestino temos cerca de 60% das células de defesa do corpo. Além da barreira física à agentes agressores, o intestino pode ser considerado como órgão de estímulo à melhora da imunidade celular (não precisamos comentar o quão isso é importante para pessoas saudáveis e, principalmente, portadores de câncer).

A mucosa intestinal agredida por vários tratamentos torna–se permeável à partículas grandes (de medicamentos, alimentos ou outros compostos mesmo deglutidos do ar) e agentes agressores como os microorganismos patógenos, que podem desencadear uma série de complicações sistêmicas como as alergias, inflamações, infecções, choque e até sepse. Grave, sim, mas perfeitamente administrado: o melhor tratamento preventivo e curativo para isto está no que levamos à boca. A alimentação é capaz de fortalecer e restaurar o epitélio intestinal, garantindo sua permeabilidade seletiva, melhorando a microbiota (flora intestinal) e garantindo a defesa contra microorganismos patogênicos e estímulo de células de defesa imunológica.

Mas voltemos àquele senhor que ainda não está sob cuidados de saúde.

Da sala de consulta nos encaminhamos (ainda que com dificuldade e muita dor) à pequena enfermaria onde a ordem seriam medicamentos intravenosos tão fortes para dor da cólica, para os espasmos intestinais, para controle de pressão sanguínea, alívio de gases e hidratação, que, infelizmente, traria mais agressão para um intestino já sobrecarregado por idade e tratamentos prévios, embora necessários.

Deitado, quase que esquecido num pequeno leito, o idoso assistiu a madrugada passar, a troca da equipe de enfermagem e a gentileza e preocupação de jovem médico que “guardou” sua tristeza por estar longe naquele período de festa por um plantão num hospital de uma cidadezinha pequena, ser substituída pela austeridade de uma médica que dava claros indícios de desagrado por estar ali, esquecendo do juramento de saúde que há muito havia feito.

O dia amanheceu e nós estávamos ali...até que, quando estava já praticamente sedado pelas altas doses do medicamento, a alta nos foi dada sem uma única recomendação. Um idoso praticamente sedado, altamente medicado, seria levado para casa sem qualquer observação de cuidado por parte de um médico que, claramente, não leu Clarice Lispector. Claro caso de desrespeito com a dor e saúde alheia.

Enfim, levamos o senhor para casa e como não podia ver o sofrimento daquele casal (ele em dor e ela emocionalmente abalada) e ficar de mãos atadas, quem o recomendou fui eu. Dentro dos conceitos que acredito e pratico e, que levaram à melhora significativa de seus sintomas nos dias seguintes.

Levando em consideração seu tratamento, possíveis sintomas adversos e medicamentos e, principalmente, a empatia por suas limitações e vontades, praticamos a base de uma dieta de detoxificação, retirando alimentos potencialmente alergênicos, numa dieta leve e pastosa (pois era o que tolerava e não incorreria em riscos de engasgos, afinal trata–se de um idoso), fria e com controle de densidade calórica, já que estava emagrecido e inapetente dos medicamentos e calor extenuante. Usamos refeições com suporte de pré e probióticos em formato de shakes, vitaminas, cremes e sorvetes...tudo com sabor que atraía seu paladar, facilidade para se alimentar sozinho e traziam compostos que ajudavam a restaurar as condições de saúde dele.

Muitas frutas vermelhas foram usadas, aproveitamos a época do ano para caprichar com consumo de cerejas, uvas e melancia, com ricas fontes de flavonóides benéficos e protetores aos danos do tratamento. As fibras foram incorporadas para aumentar textura alimentar e do bolo fecal, feita discretamente por intermédio de aveia em mingau ou banana amassada e sucos verdes bem batidos com folhas que agregaram ainda mais nutrientes para função hepática saudável. As frutas não faltaram, maçã e banana amadurecida, cruas amassadas ou levemente cozidas, compuseram com a canela sua sobremesa, garantindo funcionamento intestinal. Chás e sucos, principalmente os calmantes e saborosos como os de maçã, hortelã, canela e maracujá foram usados, isso garantia a adesão, amenizava sua ansiedade, medo e portanto, recusa alimentar e ajudaria no controle de pressão sanguínea além de hidratá–lo, tópico este amplamente incorporado em sua rotina para vencer este verão tão quente.

Alimentos potencialmente flatulentos como as crucíferas e feijões foram, momentaneamente, deixadas de lado, açúcar foi substituído por frutas, cremes de raízes e leguminosas (batatas, mandioquinha, grão de bico, ervilha...) foram usadas para nutrir e dar saciedade, sorvetes de frutas trouxeram prazer e nutrientes, ovos e iogurtes garantiram o aporte de gorduras saudáveis e proteínas e probióticos, azeite e óleo de coco foram sugeridos em preparações de forma a garantir aporte calórico, de lipídeos importantes e lubrificação intestinal e todas as estratégias foram devidamente orientadas ao cozinheiro, para um seguimento de rotina importante à saúde de ambos os idosos daquela casa. Fitoterápicos e suplementos foram devidamente indicados, o uso de probióticos, fibras prebióticas como biomassa, fitoterápicos de função hepática e carvão vegetal torna-se fundamental para restauração de um intestino tão judiado.

Dois dias se passaram, ele já estava em pé. Sem dores, mais forte, sem sinal de apatia, corado com um sentimento de plenitude e, logo ao amanhecer, acalmou o semblante tão preocupado de sua esposa com um longo beijo na testa e uma linda flor colhida em seu jardim.

E, foi assim, com uma atitude simples de cuidado com o próximo que iniciamos nosso ano.

Feliz Ano Novo!

Andrea Alterio

Andrea Alterio

Andrea Alterio é Nutricionista formada na Universidade São Camilo (SP) com especialidade em Oncologia Multiprofissional pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Mestre em Nutrigenética e possui outras 4 especializações em Nutrição Clínica, com ênfase em Metabologia e Bioquímica Médica, Nutrição Funcional, Obesidade e Esportes além de um Master em Nutrição Humana comportamental (coaching nutricional) em Roma, Itália.  Atualmente trabalha em consultório clínico, em São Paulo e Interior.

  • IKCC - International Kidney Cancer Coalition
  • World Ovarian Cancer Day
  • WAPO - World Alliance of Pituitary Organizations
  • The Carcinoid Cancer Foundation
  • Alianza GIST
  • The Life Raft Group

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