Imunidade x Alimentação

Imunidade x Alimentação

“A tua verdadeira missão jamais será encontrada no círculo de fogo da tua própria alquimia, mas sim na incrível roda gigante que gira em torno de ti.” (Dener Rezende)

Jantar de domingo em família, entre risadas e alto volume da conversa pendia em um canto da mesa um jovem recém-formado, psiquiatra.

Conversa vem conversa vai, iniciou-se uma rodada de discussão sobre iogurtes. Curiosamente como sempre o faço, me desloquei para o extremo oposto da mesa para ficar somente na observação e acompanhando a conversa, da escuta ativa retiramos informações preciosas, mas na verdade estava cuidando para que não me tornasse a chata naquela reunião familiar, só responderia alguma coisa se me fosse diretamente questionada, esta é minha filosofia.

Em dado momento uma prima então começa a contar sobre um case de seu trabalho em que fez a pesquisa para uma grande indústria de laticínios. Contava empolgada que havia descoberto que iogurtes influenciam na melhora de doenças respiratórias porque ajudavam o sistema imunológico, quando de repente foi interrompida por uma gargalhada relativamente alta do seu lado esquerdo, daquele que seria um pródigo médico até então silenciado na mesa.

Junto à risada uma repreensão e uma explicação com ares de questionamento tão raso para alguém recém formado em medicina, que eu não podia acreditar. Aliás era o que ele dizia: “vocês acreditam em cada coisa”.

Me peguei pensando verdadeiramente sobre a colocação daquele rapaz, será que ele realmente não sabia ou simplesmente vivia com pensamentos no século passado?

Estamos no inverno, dia sim outro também alguém me manda mensagem questionando sobre o que fazer para não ficar gripado, para melhorar a resposta de uma doença ou para evitar que a doença se agrave neste período. Para todos, a mesma resposta: Coma, fortaleça o sistema imunológico.

Mas o que isso significa? Em termos práticos como podemos garantir que nossas células trabalhem a nosso favor, de forma mais rápida e eficiente?

Parafraseando minha avó: raspe o prato! Tudo se cura com uma boa comida, de unha encravada até a mais grave doença como câncer.

Claro que a prevenção é o melhor caminho, uma vez instaurada a doença precisamos combate-la com todos os meios necessários além da alimentação, mas manter esta alimentação ao longo de todos os dias garantirá melhores resultados do imediato ao longo prazo.

De volta àquela reunião em que a gargalhada silenciou a todos, os olhares se voltaram para o meu lado da mesa. Numa mistura de dúvidas e ansiedade por uma resposta, fiz então meu papel no debate.

É óbvio que a alimentação está intimamente ligada à melhora do sistema imunológico. Para se iniciar a conversa, a maior parte das células do sistema imunológico ficam ligadas à parede do intestino. Dali, as células caem na corrente sanguínea e atingem a complexidade do nosso corpo. Mas é ali que boa parte é formada, crescem, se especializam e iniciam seu trabalho. Dito desta forma parece intuitivo pensar que o que comemos alimenta esta malha de células vizinha, certo?

Pois bem...para o dono da risada não era, ele desafiava as leis da fisiologia e anatomia humana como quem desafia as leis básicas da física, sem conhecimento, sem conexão, fluidez ou ligação. Para ele os órgãos eram desconexos e praticamente sem comunicação. Aquilo me preocupou fortemente, não estava ali para discutir ou travar uma batalha de egos, mas me preocupava a segregação feita entre cabeça e corpo que surgia por ali.

A beleza do conhecimento atual é a luz da medicina moderna, ser integrativa e integral. Unir áreas de conhecimento e união do todo como padrão de resposta único. Tudo flui em nosso corpo e tudo está maravilhosamente interligado e conectado, perfeitamente explicado na frase que inicia este texto.

De forma bastante sutil e inspirada no filme que acabara de assistir no cinema, fui desenhando num guardanapo o funcionamento do corpo como uma cena de ação, não para confrontar os São Tomés presentes, mas para arrebanhar os leigos interessados.

Quando comemos, o intestino é a porta de entrada seja dos nutrientes como das toxinas que ingerimos, por isso falamos tanto em uma alimentação limpa, sem aditivos, sem defensivos agrícolas e “viva”, para nos poupar, evitar a exposição excessiva dos vilões na trincheira.

O intestino é um órgão que precisa estar intacto para exercer seu papel de seleção de material, torre de controle, do que deve entrar no corpo e alimentar as células e o material que deverá ser seguir seu caminho até eliminação.  Isso posto, não é de se admirar que se o intestino é a porta de entrada, o criador nos tenha feito com o maior tecido de defesa (sistema imunológico) por perto, para monitorar, vigiar e combater intrusos logo na entrada. Assim, as células que ali estão se desenvolvem por ali e se especializam naquela região até alcançar novos sistemas.

Comer sempre foi a maneira simplória para se tratar, fortalecer, dar energia, melhorar da doença, curar mais rápido. Nunca pararam para pensar porque? Porque é através da alimentação que damos nutrientes às células. Somente com energia suficiente um motor funciona. Somente com os nutrientes adequados, se lubrificam as engrenagens e coloca-se tudo para rodar em perfeição, sem travamento, sem barulhos, em sincronia. É por meio das refeições que garantimos nutrientes e fitoquímicos específicos que ajudam certas células a trabalharem e se queremos estimular as células imunes, temos que dar escudos e armas à elas.

Dos nutrientes mais importantes para estas células pinçamos alguns, minerais como zinco, selênio, ferro e cobre e vitaminas como A, C, E, B6 e B9, então alimentos vegetais como os folhosos escuros, frutas cítricas e mais azedinhas, frutas laranja avermelhadas, castanhas e sementes integrais todos estes alimentos vão nos fornecer estes nutrientes e ajudarão as células a crescerem adequadamente e se munirem de enzimas para o combate da doença.

Óleos como os de sementes e castanhas, fontes de ômega 3 e 9, dão ao corpo a lubrificação, a leveza que permite os sistemas conversarem, evitam a inflamação do corpo que é uma resposta exagerada de defesa, como se fosse passar com um tanque de guerra por cima de um formigueiro e acabam por agravar a foto do cenário de ”guerra” e complicar a informação para a estratégia de combate.

Alguns fitoquímicos da cebola, alho, alimentos crucíferos como brócolis, couve flor etc...possuem uma característica peculiar de inibir o crescimento fúngico, viral e bacteriano, assim usá-los no dia a dia previne que microorganismos indesejados (vilões) cresçam e ganhem força para derrubar a porta de entrada do corpo.

E se nosso corpo possui muros altos (intestino) e guardas na porta de entrada (sistema imunológico), porque não colocamos portões com interfone para filtrar ainda mais os invasores. Neste quadro, a nossa microbiota (flora intestinal) exerce este papel. Fortalecer esta equipe, significa evitar que agentes indesejados sequer passem pelos portões, significa dar olhos e informação para passar para equipe interna de vigilância. A saúde de nossa microbiota é, portanto, essencial para o trabalho de inteligência do sistema imunológico.

E é ai que os iogurtes eu iniciaram toda a discussão entra. Preparado com microorganismos saudáveis, iogurtes e outros produtos fermentados exercem um papel importante de zelar pela reposição da fronte de defesa. Se comemos diariamente microorganismos que trabalham a nosso favor e dermos à eles alimento e ambiente adequado para continuarem sua vida por ali, eles fixarão moradia e trabalharão conosco em troca de um benefício mútuo.

Os probióticos são estes microorganismos, bactérias e leveduras saudáveis que ajudam a combater invasores e ainda alimentam a rede de informação as células de defesa do corpo. Comer iogurtes, leites fermentados, chás fermentados (kombucha), queijos fermentados, brotos de cereais e fibras de sementes e vegetais é garantir o aporte necessário de exército de defesa e suprimento para seu sustento.

Em tom ainda titubeando entre o deboche e descrença com certo interesse, o rapaz lança uma pergunta: Então está a dizer que pode a alimentação melhorar a resposta de doenças graves como o câncer? Precisa e certeira a resposta foi um claro e sonoro, Sim. Melhora a resposta das mais simples às mais graves, no entanto, a intensidade e duração do nosso aparato de reserva, a rotina de alimentação, nossos hábitos saudáveis e de prevenção é que determinará o andamento do combate.

As células de câncer se alimentam dos mesmos nutrientes que as demais células do corpo, imaginem agora trazer tudo para um teaser do missão impossível... Se as células do intestino não possuem alimento necessário (ex. energia e glutamina) para crescerem e se especializarem no muro que formam de barreira; o intestino ficará fraco e doente ou, “aberto”. Sem ainda o exército da frente (microbiota saudável ou ausência desta) a passagem de invasores é facilitada e desviam a atenção das células internas de defesa, gerando um cenário caótico de combate ou em termos fisiológicos, stress e inflamação. Este ambiente bagunçado é o momento perfeito para as células malignas se infiltrarem, como vilões disfarçados, a confusão pode acontecer à qualquer minuto, e as células do mal, bem aparelhadas se aproveitam das nossas forças (nutrientes) para crescerem e aumentarem disfarçadamente seus pares, com o tempo se infiltram em outros sistemas e está formado o problema.

Desta forma, se a nossa rotina e hábitos incluírem sempre itens de extrema necessidade para a integridade intestinal, fornecer suprimento necessário para a microbiota crescer e permanecer por ali, gerar nutrientes suficientes para as células do sistema imunológico crescerem, multiplicarem, se especializarem para sair dali e se tornarem vigilantes no corpo, teremos o panorama perfeito para a alimentação cuidar e fortalecer o sistema imunológico.

Traduzindo em termos de rotina, se seus hábitos contiverem: 5 porções de vegetais ao dia (frutas, legumes, verduras e cereais); 8 vegetais diferentes aos dia; dia novo, cor nova; castanhas e sementes; brotos e alimentos fermentados (iogurtes, leites fermentados, queijos, kombucha, vinagre...); azeite e óleos de castanhas, atividade física e respiração; atenção plena, cuidado com o que se come, ao que se sente e calma emocional, você estará gerando um ambiente de respeito, paz e conhecimento ao corpo, permitindo que ele trace todas as estratégias necessárias para a nossa vigilância.

E foi desta mesma forma, descrevendo o paralelo entra células do corpo com basicamente as habilidades de Ethan Hunt que finalizei quase que um novo roteiro para um filme, mas que espero ter atingido algum dos espectadores

 

Andrea Alterio

Andrea Alterio

Andrea Alterio é Nutricionista formada na Universidade São Camilo (SP) com especialidade em Oncologia Multiprofissional pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Mestre em Nutrigenética e possui outras 4 especializações em Nutrição Clínica, com ênfase em Metabologia e Bioquímica Médica, Nutrição Funcional, Obesidade e Esportes além de um Master em Nutrição Humana comportamental (coaching nutricional) em Roma, Itália.  Atualmente trabalha em consultório clínico, em São Paulo e Interior.

  • IKCC - International Kidney Cancer Coalition
  • World Ovarian Cancer Day
  • WAPO - World Alliance of Pituitary Organizations
  • The Carcinoid Cancer Foundation
  • Alianza GIST
  • The Life Raft Group

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