Especial Outubro Rosa

Especial Outubro Rosa

"Em uma corrida entre o perigo e a indecisão, a diferença entre a vida e a morte se resume a confiança. Fé em nossas habilidades, certeza em nós mesmos e a confiança em que colocamos em outros."

Era primavera de 2017, os dias estavam quentes, as árvores estavam floridas, mas o dia chuvoso parecia não corresponder ao maravilhoso momento que a Mari vivia.

Era o dia seguinte de seu parto, tudo transcorrera perfeitamente como seu sonho com o parto natural. Mãe e bebê saudáveis, felizes e muito amados, contudo uma dificuldade estava presente, a dor que sentia ao amamentar estava lhe deixando bastante transtornada.

Naquela mesma manhã ela tinha deixado seu bebê para seguir uns exames de urgência.

No momento em que eu estou chegando ao quarto, em visita à linda família, o médico havia acabado de declarar... “As notícias que trago, não são boas”.

Em decorrência da dor que sentia, uma enfermeira que entrara no quarto para ajudá-la, havia sentido algo inusual ao palpar sua mama na tentativa de orientá-la no aleitamento.

Naquele mesmo dia, transcorreram-se uma série de exames incomuns para o período que Mari passava e, a alegria de ter se tornado mãe confundiu-se ao desespero do diagnóstico seguinte.

Mari era muito bonita, alta, esbelta, com boa resposta metabólica para os péssimos hábitos alimentares praticados, motivos de acaloradas conversas entre nós. Com seios fartos desde a adolescência, o que lhe rendia olhares e uma vaidade bastante elevada, embora não tenha ganhado muito peso durante a gestação, suas mamas aumentaram muito de tamanho. O que provavelmente foi uma das causas de uma falha na percepção daquele nódulo na mama direita.

Naquela tarde, infelizmente, o tempo parecia chorar conosco, a chuva que caía entrava em sintonia com o sentimento da família e amigos. O tempo lindo e ensolarado de alegria, se transformara em nebuloso em meio ao medo que agora pairava naquele quarto.

Mari estava com um lindo bebê no colo e uma notícia de diagnóstico de câncer na mão. Era um carcinoma lobular invasivo, o tipo que se inicia nas glândulas produtoras de leite, insurgindo a teoria que a gestação havia despertado seu surgimento como forma de punição por sua negligência com sua própria saúde e histórico familiar. Mari tinha perdido uma tia para esta mesma doença e desde a perda da mãe por um câncer de ovários, ela negava a si própria as chances de cuidado e rastreamento de sua saúde, sob o motivo de não se permitir dominar pelo medo.

Sua primeira reação foi a negação, seguida de culpa, questionamento, dúvidas, medos e incertezas, mas passado o primeiro dia de susto, assim como a chuva, suas lágrimas cessaram. A clareza de suas decisões ganhou fé e força desconcertante, como se tivesse sido trazida pelos raios de sol da manhã seguinte que iluminavam diretamente o bercinho de seu filho.

Mari olhava aquele serzinho iluminado e seu peito se enchia de paz, não mais de medo. Ele dependia dela e ela conseguia pensar em tudo o que faria para merecer -lo crescer e ser feliz.

Naquela semana os exames continuaram e a decisão de parar o aleitamento e iniciar o tratamento foi crucial. O sonho de sentir o conforto de seu bebê nos braços enquanto o alimentava não ia ser destruído, apenas alterado em sua metodologia. Mari não queria se deixar abater, ela queria participar de todas as etapas de sua vida e se para isso seu sonho precisasse mudar de percurso, não havia motivo para não fazê-lo.

A amiga de infância, nutricionista, tornou-se ainda mais presente. Mari me confiou seu momento e fé nas minhas habilidades para modificar absolutamente todos os seus hábitos. Queria iniciar um projeto em que comeria tudo aquilo que ela sempre negou e que era motivos de grandes risadas entre nós.

Claro que no período gestacional ela vinha com uma orientação profissional, baseada nas escolhas mais saudáveis, ela havia modificado um pouco seu perfil de alimentação em busca da melhor nutrição para seu bebê, mas agora, as mudanças seriam mais contundentes e os maus hábitos e vícios que ela não queria largar em nome de seu protesto contra a “ditadura da beleza” atual, agora passariam por uma grande revisão.

Iniciado o tratamento com drogas para cessar a lactação e iniciar quimioterapia, ela seguiria para o tratamento de radioterapia conforme sugestão médica. Tentando se segurar em meio ao desconforto dos efeitos adversos das drogas e o novo papel de mãe, algo ainda mais assustador surgiu, o resultado final de seus exames.

Seu tipo de câncer era o de mais difícil tratamento, triplo negativo, a investigação genética também havia se tornado um pesadelo, os marcadores eram positivos. Mari sabia que devia decidir. Fragilizada pelo período pós parto e exaurida pelos sintomas do tratamento ela tomou a dura decisão.

Após dias de reflexão e conversas, decidiu por uma mastectomia radical, tiraria ambas as mamas. Decisão difícil para ela, apoiada pelo marido que compartilhava do mesmo medo de perdê-la. Ela sabia que as chances de uma recidiva eram maiores em seu caso e queria colocar um fim definitivo àquilo, mesmo que lhe custasse um pouco de sua vaidade feminina.

Em nome de seu amor, Mari se submeteu à cirurgia e iniciou o tratamento adjuvante. E juntas, iniciamos um novo ciclo de hábitos.

No mesmo dia, uma decisão ainda mais radical a todos surpreendeu. Ela decidira não fazer uma cirurgia de reconstrução. Tratou a ausência dos seios como um sinal de alerta, para que sempre que se olhasse e se tocasse, lembrasse dos seus erros e do que havia se comprometido a fazer para mudar.

Dedicada, Mari passou a frequentar a cozinha e, sua nova dieta agora era acima de tudo natural. Ela cuidava dela e do bebê com o maior apreço e dedicação. Havíamos criado um cardápio bem colorido e ela passou a gostar dos alimentos que nunca havia dado valor...os vegetais!

Como ela não os comia crus, estratégias de cozimento e receitas que os embutiam “secretamente” eram criadas: cremes, sopas, risotos, molhos, sufles, suchás, vitaminas foram incorporados como forma de aumentar a ingestão de nutrientes diferentes ao longo dos dias.

O diário alimentar permitia a percepção de melhora da alimentação da Mari. Ela o preenchia como uma menina preenche seu diário de vida na infância. Lia e relia suas páginas em busca de melhoria na qualidade e no número de porções ingeridas.

Passamos a contar pontos e ganhar prêmios para o aumento de porções, variedade, cores e ervas usadas na alimentação e assim a dieta ganhou uma forma lúdica de jogo onde a Mari nunca perdia.

Para os dias de náuseas, alimentos leves e gelados eram orientados, smoothies e água de coco garantiam o bom aporte de nutrição, melhora daquela terrível sensação e hidratação. O gengibre foi especialmente usado nestes casos, em sua forma natural, raiz, na alimentação em sucos ou como chá. Alguns fitoterápicos tornaram-se hábito em shots antioxidantes diários como própolis, hortelã e ginseng. Para os dias de angústia, lançávamos mão de uma alimentação mais leve e calmante com maracujá, camomila e lavanda por exemplo, seguidos de períodos de meditação.

Dias de constipação derivavam do tratamento e do período pós gestacional, assim um ciclo de limpeza intestinal seguido de reinoculação de probióticos foi fundamental. Dali seguíamos com o consumo de probióticos e alimentos fermentados como leite, tofu e kombucha e prebióticos como a aveia e biomassa, que foram incluídos diariamente nas preparações consumidas. O suco de Aloe vera passou de vilão do sabor, à mocinho, quando dominamos à arte de misturá-lo à água de coco ou suco de uva que garantiria ainda mais a melhora da resposta epigenética na manutenção da integridade intestinal.

Após o ciclo de limpeza intestinal iniciamos outros ciclos, de ordenamento hepático, para podermos lidar melhor com a eliminação dos metabólitos das drogas e o ciclo renal, para garantirmos a eliminação completa dos efeitos adversos que ela sentiria.

Alimentação com folhas verde escuras e algas, muita fonte de folato e metilcobalamina foram incluídas. Os vegetais crucíferos (brócolis, couve flor, couve de bruxelas...) tinham presença obrigatória, limão e vinagre de maçã passaram a ser rotina no tempero de suas refeições; açafrão, coentro, manjericão e outras ervas eram figuras repetidas em seu dia a dia. Tudo isso fornecia os nutrientes essenciais para o bom funcionamento de seu fígado.

Temperos como alho, cebola e óleo de coco agora faziam parte de sua vida, como agentes fundamentais para melhora do seu sistema imunológico e combate à doença.

Para evitar a anemia e cansaço que podia advir tanto da fisiologia normal do seu momento de vida como da doença, incluímos todas as fontes possíveis de ferro e vitaminas do complexo B. Leguminosas e frutas foram incluídas em combinações especiais que favorecessem a plena absorção. E assim, Mari aprendeu a combinar alimentos de forma especial e criar receitas tão saborosas como nunca imaginou fazer.

Tomava vitaminas, sucos verdes e caldos de feijão preto, ervilha e folhas (como couve e espinafre) com frutas como a laranja ou limão, coisa que jamais imaginou que ficaria tão delicioso. Exercícios físicos começaram a fazer parte de seu dia a dia e assim ela espantou o fantasma do cansaço, queria estar presente de corpo e alma para seu filho.

Nem com a grande perda de cabelo, agravado pela doença, Mari desanimou. Passou a fazer uso dos suplementos prescritos especialmente para ela como complementação de sua boa alimentação. Em alguns meses a perda dos fios diminuiu, assim como sua preocupação.

Seis meses depois de uma mudança radical de hábitos, com intenção de combater os efeitos do tratamento e prevenir surgimento de nova doença, Mari estava bem, plena e feliz. Não se escondia mais embaixo de roupas fechadas com medo de sua aparência e, agora se olhava no espelho e enxergava aquela mulher que um dia fora.

Num mesmo dia de primavera, ao delicioso perfume de lírios, se olhou no espelho após o banho e tomou a decisão final, se permitir incluir algo não natural em seu corpo, uma prótese, que lhe devolveria a auto estima e poder. Reafirmaria sua fé e seria o símbolo de uma vitória.

Hoje, um ano depois, as condutas alimentares se mantêm e, novos complementos, sobretudo os fitoterápicos, são usados em ciclos, para garantir ainda maior aporte de fitoquímicos protetores.

Nossas conversas acaloradas sobre alimentação e percepção corporal continuam, o que nos rende boas risadas, porém, hoje são seguidas de pesquisas e desenvolvimentos culinários que nos garante bons momentos e lanchinhos saudáveis que incluo nas diretrizes de outros clientes queridos e dedicados à vida.

Como resposta, Mari fez questão de retomar a religião que há muito havia abandonado e como presente me confiou sem bem maior, me deu por afilhado aquele anjo lindo e, assim como me comprometi com ela em sua luta, prometi à família ser digna da confiança que me depositaram naquele ano, guiá-lo nos ensinamentos que meu juramento profissional me permite e em direção à luz da palavra maior, o amor.

Andrea Alterio

Andrea Alterio

Andrea Alterio é Nutricionista formada na Universidade São Camilo (SP) com especialidade em Oncologia Multiprofissional pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Mestre em Nutrigenética e possui outras 4 especializações em Nutrição Clínica, com ênfase em Metabologia e Bioquímica Médica, Nutrição Funcional, Obesidade e Esportes além de um Master em Nutrição Humana comportamental (coaching nutricional) em Roma, Itália.  Atualmente trabalha em consultório clínico, em São Paulo e Interior.

  • IKCC - International Kidney Cancer Coalition
  • World Ovarian Cancer Day
  • WAPO - World Alliance of Pituitary Organizations
  • The Carcinoid Cancer Foundation
  • Alianza GIST
  • The Life Raft Group

Faça parte Novidades

Temos muitas coisas para compartilhar com você.
Lembre-se: você não está sozinho!

Digite o email corretamente

Seu e-mail foi cadastrado com sucesso. Obrigado!

Indique este site

Indicação realizada com sucesso!

Seja parceiro

Mensagem enviada com sucesso!

Seja voluntário

Mensagem enviada com sucesso!

Envie seu depoimento

Depoimento enviado com sucesso!