Cuidados com a alimentação X Festa Junina

Cuidados com a alimentação X Festa Junina

“Por causa de prazeres passageiros, sofrem-se grandes tormentos eternos.” (São João da Cruz)

“Cliente entra no consultório. Já chega agoniado e falando muito:

- Doutora, sabe o que é... estava com meu amigo Júlio e ele disse:

- Ah, estou num aperreio só. Descobri o câncer de estômago, mas queria comemorar o São João na Campina.

Aí eu disse: - Pronto!... estou indo em uma doutora e pergunto para ela o que você pode fazer!”

A conversa se iniciou desta maneira... Tenho verdadeiro amor pela maneira narrativa com que nordestinos contam uma história e logo me vi enredada mais na história e problemas do amigo Júlio que do meu próprio cliente.  

Em um piscar de olhos fui agradavelmente projetada para as noites iluminadas pelas fogueiras de rua, sentada numa roda ao seu redor com a aquela lembrança da musiquinha de infância e um delicioso quentão nas mãos...mas tão quente, tão quente que mal conseguia dar um gole.

E foi aí que me conectei com a doença do amigo...

Um dos grandes fatores de risco para lesão de mucosa gástrica (e estamos falando desde a boca até o estômago) é o excesso de calor. Altas temperaturas daquilo que ingerimos podem causar queimaduras e lesionar as células que durante o processo de recuperação podem acabar sofrendo falhas e ativar os mecanismos neoplásicos e desencadear a formação do câncer.

Mas claramente o calor é apenas um dos fatores de risco para o desenvolvimento do câncer gástrico e, talvez o mais fácil de se prevenir, dos inúmeros outros (infelizmente) que existem por aí.

Cuidar da alimentação como um aspecto preventivo mas também como tratamento, é uma das melhores formas de se inibir e reverter o quadro inflamatório e proliferativo da doença. O quadro de Júlio era inicial, seu tipo de câncer estava claramente vinculado com o desenvolvimento de uma úlcera ativada por uma bactéria H. Pilory e esta conseguiu se desenvolver graças à um erro muito comum e neste caso fatídico...o uso contínuo de medicamentos de alívio dos sintomas gástricos como azia, refluxo e queimação.

A questão toda do desenvolvimento da doença é bastante complexa mas de maneira bem simplificada poderíamos dizer que o uso de medicamentos que inibem a formação do ácido clorídrico, com o “bom” intuito de maquiar o sintoma de dor causado pelo contato direto do ácido (liberado para digestão dos alimentos) com células do estômago, acabam por gerar um ambiente de pH mais alto ou, menos ácido, permitindo assim uma série de desordens que podemos enumerar resumidamente em 3 pontos:

1 – permissividade do crescimento bacteriano do Helicobacter pilory, que em ambiente menos ácido consegue sobreviver e crescer;

2 – o ambiente menos ácido, camuflado pelo medicamento, inibe a formação do muco de proteção da parede celular do estômago, aumentando a exposição direta das células à ação e toxinas produzidas, aumentando os fatores de risco da doença;

3 – o uso contínuo da droga gera um ciclo vicioso e um quadro de hipocloridria, contexto este em que o estômago diminui muito a produção do ácido digestivo, assim o alimento demora muito mais tempo para ser digerido e pode acabar putrefando, gerando ainda mais intercorrências como o desconforto abdominal e conversão de compostos em metabólitos tóxicos e cancerígenos.

Depois desta breve e densa explanação sobre a doença retomamos o contato com o caso Júlio.

Há anos ele fazia uso contínuo dos “prazóis” para evitar a sensação de desconforto que sentia ao comer; comer muito, comer grandes volumes de carnes e doces, sem nunca ter de fato tratado a causa desta indigestão.

Tal e qual sugeria São João, Júlio cedera à prazeres momentâneos e agora, mais que nunca dependeria da alimentação regrada para reverter e tratar a doença que o acometera.

Interromper o uso do medicamento é primordial, a alimentação leve, de fácil digestão, com volume reduzido e aumento de frequência alimentar seria essencial, somente assim ele conseguirá recuperar a mucosa de proteção celular e voltar a produzir suco digestivo adequado para produzir um ambiente ácido o suficiente para eliminar a possibilidade de crescimento bacteriano e em quantidade acertada para digerir o alimento no estômago, sem ficar por ali, por horas de tortura. Se ele agregar diariamente o consumo do suco verde com aloe vera, mais ajuda na proteção gástrica conseguirá.

Uma alimentação com muitos vegetais crus garantirá o aporte de enzimas digestivas que auxiliam o trabalho digestivo do estômago, minimizando o gasto/produção de ácido clorídrico e melhorando a sensação de conforto pós alimentação. Evitar bebidas durante a refeição já é sabido, mas por vezes a falsa percepção de digestão nos faz beber como se facilitasse o processo, no entanto, ao fazer isso diluímos o ácido digestivo e atrasamos ainda mais o processo.

Preferencialmente a alimentação deve ser fria, não somente para minimizar o risco de lesão às células já machucadas, mas porque assim como a música;

     

      “Pula a fogueira iaiá

Pula a fogueira ioiô.

Cuidado para não se queimar

Pois essa fogueira já queimou o meu amor!”;

 

O fogo, embora seja um meio de garantir a sanidade dos alimentos, se excessivo pode “queimar” os nutrientes e produzir resultados indesejados para a alimentação de base vegetariana, como a inativação de enzimas e perda de nutrientes antioxidantes e, para alimentos de origem animal, muito embora o calor facilite o processo digestivo pode gerar compostos cancerígenos, derivados da queima da gordura e proteínas (aminas heterocíclicas, hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, acroleína e outros), então preferencialmente uma comida mais natural torna-se a melhor opção.

Assim literalmente pular a fogueira seria a dica alimentar mais sensata para Júlio neste São João.

E para seguir dançando quadrilha outra dica em forma de música me fez me teletransportar para as quadras do meu colégio, de saia rodada e trancinhas no cabelo...ah se imaginássemos que a música contemplaria grandes segredos de plena saúde;

 

            “Capelinha de Melão é de São João

É de Cravo é de Rosa é de Manjericão

São João está dormindo

Não acorda não!

Acordai, acordai, acordai, João!”;

 

Seguiríamos com estes alimentos desde a mais tenra idade e garantiríamos mais prematuramente a prevenção de certas doenças.

Seguindo a letra o melão cantalupo ou caipira é um alimento crucial para a defesa antioxidante da doença, Júlio deveria aproveitar seu sabor e incluí-lo em sua alimentação semanalmente. O cravo, rosa e manjericão, fontes de fitoquímicos de defesa importantes poderiam ser incorporados em temperos, saladas e infusões, garantindo o aporte necessário para a defesa do corpo.

Mas de acordo com a tradição das comidinhas festivas, alguns outros ricos ingredientes da comemoração podem ainda contar com preparações mais leves sendo apreciados da mesma maneira, sem os vieses nocivos como uso de açúcar e fogo ou calor excessivo.

Assim como nos festivais passamos parte do tempo pensando na roupa em que usaremos no arraiá, gastar parcela deste tempo inventando novas apresentações para antigas receitas faz parte da boa cultura alimentar.

Coco, milho, amendoim, pinhão, caldo verde, canela e gengibre são todos ingredientes riquíssimos usados nesta época e porque não aproveitá-los de maneira adequada e garantir a festança?

Aquele arroz doce, pode ser feito com leite de coco, aveia e canela, garantindo assim menor aporte de carboidratos, fibras e gorduras saudáveis do coco. A pamonha salgada pode ser agregada com sementes de chia e temperada com ervas e azeite e garantir ainda maior biodisponibilidade de um poderoso polifenol, a zeaxantina. O pinhão, rico em flavonoides pode ser acrescentado em saladas e arroz e aprimorar a defesa interna contra o ambiente inflamatório.

O caldo verde, não muito quente, servido com batata com casca e couve sem a presença nociva dos embutidos (linguiça) garantirão o calorzinho na noite fria e magnésio suficiente para a energia e metabolismo celular. E para acompanhar toda a cantoria, não poderíamos ficar de mãos vazias...enquanto amigos dançam ao som e goles de quentão ou vinho quente, Júlio aproveita a idéia e faz sua própria infusão na versão de rosas, hibisco, canela, cravo e rodelas de limão, fácil...fácil de se substituir e preservar a saúde e comemoração.

E o amendoim, tão rico em gorduras saudáveis, não poderia ser esquecido. Seu consumo puro e simples (torrado) ou, na sua atual e mais moderna forma, a pasta de amendoim, podem tranquilamente satisfazer os anseios dos festeiros como Júlio.

E “olha isso aqui está bom demais” para ser verdade... mas sim, esta é a realidade: BOA demais, porque comer é bom e comer saudável melhor ainda! Assim, com boa pitada de criatividade e respeito pela saúde ninguém, nem mesmo alguém com doença tão importante precisa ficar de fora do arraial!

Feliz São João!

Andrea Alterio

Andrea Alterio

Andrea Alterio é Nutricionista formada na Universidade São Camilo (SP) com especialidade em Oncologia Multiprofissional pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Mestre em Nutrigenética e possui outras 4 especializações em Nutrição Clínica, com ênfase em Metabologia e Bioquímica Médica, Nutrição Funcional, Obesidade e Esportes além de um Master em Nutrição Humana comportamental (coaching nutricional) em Roma, Itália.  Atualmente trabalha em consultório clínico, em São Paulo e Interior.

  • IKCC - International Kidney Cancer Coalition
  • World Ovarian Cancer Day
  • WAPO - World Alliance of Pituitary Organizations
  • The Carcinoid Cancer Foundation
  • Alianza GIST
  • The Life Raft Group

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