Coaching de Natal

Coaching de Natal

Último cliente, última sexta-feira de trabalho no consultório, daquele ano, o recesso vinha com um ar de missão cumprida. Aquele ano tinha sido bastante proveitoso mas, faltava ainda uma orientação e depositava nela a esperança de fechar com chave de ouro.

Estava confortavelmente sentada na poltrona quando a cliente chegou, feito um furacão largou na mesa um vaso de um lindo manjericão roxo (que descobri mais tarde ser um gracioso presente de Natal) e se jogou no sofá, ansiosa, agitada, imbuída de um comportamento tirano, na tentativa de me persuadir a corroborar com seus deslizes. Cheia de argumentações sobre o que eram alguns dias para um ano inteiro em que tinha se comportado. Será que não poderia ficar sem dieta naquela semana de festividade, já que tinha perdido bastante peso durante o ano?

Eu me mantive firme, convicta de todo o trabalho que tivemos, merecidamente ela recebia os parabéns pelo esforço anual, mas a resposta mantinha–se a mesma. Não, não pode ficar sem dieta! Não tem porquê se desfazer do seu trabalho de um ano.

As festas chegam mas o bom senso não pode ir embora. Pequenas permissões abrem espaço para grandes erros. Ela sabia que esta seria minha resposta, então veio preparada com um batalhão de perguntas. Ansiosa, ela me citava todos os diversos eventos que já tinha programado e que não queria faltar, imputava–se uma tristeza idealizada por achar que deixaria de participar das comemorações.

Calmamente a tranquilizei...respire fundo, beba água. Dê tempo para o cérebro pensar.

Nunca preparei uma orientação que a tirasse de seu ambiente social. Durante o ano foram festas, aniversários, férias e happy hour, porque seria diferente no final do ano?

A ansiedade tomava conta e com ela vinha a gula como sinal nítido de recompensa para o corpo, mas era seguida da depressão, auto imposta por sentimento de culpa. Eu já havia explicado este mecanismo fisiológico de oscilação da adrenalina e serotonina, que ela vinha sentindo...mas devíamos retomar ponto a ponto.

Lancei-lhe  logo uma pergunta: porque a euforia de participar das festas não é vivida pela presença das pessoas e não pelo que vai à sua boca. O que é mais importante nesta época, afinal?

Esta é uma questão que deve permear não somente esta época do ano, mas o ano por inteiro. Claro que não estamos dizendo que a alimentação não é importante, sim ela é, e deve continuar sendo pensada. Todavia festas são comemorações, momentos para abraçar, rir, reencontrar, conversar, refletir... A importância que damos às festas deve ser imposta à presença emocional, afetiva e, não aos comes e bebes que existem por ali, que são meros complementos.

Respire fundo, vamos continuar... seu dia, sua rotina continua a mesma e deve ser organizada. Os horários devem ser mantidos, afinal, ninguém para de viver por conta de uma festa. Começamos a elencar os horários do(s) dia(s) prometido(s). Ao acordar, o que faria?

Um café da manhã com o tradicional café preto e óleo de coco, frutas com cereais e sementes e fonte de proteína para ter efeito sacietógeno e não deixar a gula despertar, não ter vontade de comer sem ter realmente fome.

Esta foi sua resposta! Simples e perfeita, o conceito estava ali, encoberto por uma momentânea ansiedade que bloqueava seu pensamento. E depois, já é a festa?

Não, claro que não. Viriam o lanche da manhã saudável preparado com uma xícara de chá de hibisco com limão e mini saladinha de tomate e queijo, para preparar o paladar para o almoço, refeição que faria com na presença dos mesmos colegas de trabalho para comemorar o recesso. E, porque comeria algo diferente então; sente falta de alguma coisa normalmente; sente fome após esta refeição?

A pergunta lhe fez aumentar os olhos. A resposta: não sei. Não tem motivo. Continuarei a fazer meu prato com muita salada, legumes e raízes regados à azeite de oliva e ervas e aproveitaria o momento para comer ainda mais lentamente, com tempo para o bom bate papo, sem a rígida preocupação do retorno ao trabalho.

Mais uma vez nota 10 pela resposta. Estava ali, mais um mito desabando.

Seguimos o dia, o lanche era sempre um momento crucial de ansiedade, mas o chá de maracujá com gengibre que sempre tomava com a vitamina de frutas como pré treino, lhe trazia uma doce sensação de autocontrole e missão do dia cumprida. E, continuaria assim, porque as aulas de pilates e bike continuavam agendadas...não iria parar, não abriria mão daquela rotina de endorfina que tanto lhe fazia bem. Então porque ‘raios’ o lanche seria a tormenta? Mais uma vez...sem resposta.

Chegamos ao momento mais delicado: o jantar. Momento da confraternização. Aconteceria fora de casa, quase todos os dias da semana, em restaurantes deliciosos cercados por gente alegre. Mas o que isso mudaria em sua escolha alimentar?

Nada, mais uma vez: nada. O cardápio continua repleto de opções saudáveis para escolher. Basta deixar a euforia de lado e pensar com calma. Onde iriam?

Assuma a liderança, você pode sugerir opções que sejam abertas à todos, basta se organizar.

Mas eis que surge a razão do desespero inicial: a bebida.

Claramente que neste momento não adiantaria impor que não bebesse. Devemos ser realistas. Então como sempre orientado: opte por uma bebida que te traga melhor custo benefício. Neste caso, escolha um bom vinho.  

Já ia iniciar toda a explicação sobre os benefícios para saúde do resveratrol da uva quando...(momento de pausa).

Nos entreolhamos e viramos para o painel ao fundo do consultório: “O melhor vinho não é necessariamente o mais caro, mas aquele que compartilhamos” (George Bassen)

 

As risadas aliviaram a consulta..mais um peso perdido!

Retomamos ainda sorrindo ao assunto... o vinho traz aromas marcantes ao paladar e, portanto, saboreie.

Por seu paladar forte e amargo, o vinho carrega em si o benefício de não precisar de muita quantidade de bebida para sentir–se satisfeito e se seguisse a próxima #dica de ouro, não precisaria se preocupar.

Sempre acompanhe as conversas com uma taça de água em uma mão e na outra o vinho escolhido. Desta forma estará participando da comemoração e diluindo o álcool, pois a cada gole dado, serão dois goles de líquidos bebidos...infringindo uma maior sensação de plenitude e, portanto, (depois de já devidamente treinado ao longo do ano) o corpo sabe o momento de parar. O importante seria prestar atenção. Mas ela estava bastante atenta!

Mas e o Natal? Veio a pergunta.

O que tem o Natal? É um momento feliz, para rezar e agradecer e nada mais que um jantar que acontece em casa, com amigos e família, sentados à mesa com comidas deliciosas que sempre podem ser saudáveis. Qual o ponto?

Já havia lhe dado diversas receitas para transformação da tradicional farofa natalina, para o tempero suave e rico do lombo cozido e da salada frutal de acompanhamento do peru assado, a sobremesa seria um delicioso e leve cheesecake com frutas vermelhas. Neste momento lembrei que o cardápio do ano novo também já estava decidido. Então...qual era o drama?

Ela parou, me olhou e disse: Nenhum.

O ponto crucial daquela consulta claramente não estava na qualidade de escolhas alimentares mas sim, no autocontrole emocional. No manejo da euforia que aquela época trazia.

Para isso, vínhamos trabalhando durante o ano todo em um acompanhamento nutricional comportamental e este não era o momento de recuar. Aquela era sua prova final: “Recuar, só se for para pegar impulso”, este era seu lema.

Chegamos ao final da consulta, fechando com chave de ouro, com todos os temas abordados, horários devidamente organizados, padrão alimentar traçado e emoções sob controle.

Ela seguiria com os dias normais, feliz, comemorando todos os eventos festivos sem precisar se culpar ou ficar deprimida por não ter participado. O mais importante ali era saber que sua vida lhe pertencia, ela estava segura e convicta, sabia que poderia assumir as rédeas de suas escolhas alimentares, quebrando paradigmas sem prejuízos aos eventos e lembrando: não se ganha peso por comer muito mas, por comer mal.

Foi assim que me despedi de um ano intenso, com um forte abraço e desejos de um Natal saudável e iluminado e com grandes expectativas para o próximo ano e, claro com mais um pezinho de um perfumado fitoquímico para minha coleção.

Bom Natal a todos e lembrem-se: sempre temos opção de escolha, não seria diferente com a alimentação!

Andrea Alterio

Andrea Alterio

Andrea Alterio é Nutricionista formada na Universidade São Camilo (SP) com especialidade em Oncologia Multiprofissional pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Mestre em Nutrigenética e possui outras 4 especializações em Nutrição Clínica, com ênfase em Metabologia e Bioquímica Médica, Nutrição Funcional, Obesidade e Esportes além de um Master em Nutrição Humana comportamental (coaching nutricional) em Roma, Itália.  Atualmente trabalha em consultório clínico, em São Paulo e Interior.

  • IKCC - International Kidney Cancer Coalition
  • World Ovarian Cancer Day
  • WAPO - World Alliance of Pituitary Organizations
  • The Carcinoid Cancer Foundation
  • Alianza GIST
  • The Life Raft Group

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