Antes de ser um bom profissional, temos que ser um melhor ser humano

Antes de ser um bom profissional, temos que ser um melhor ser humano

“Não espere ser um expert em algum assunto para ajudar as pessoas, pois o que muitas delas precisam é exatamente alguém que olhe o básico por elas.” (desconhecido)

E, foi assim que recebi o retorno da notícia do falecimento de um querido paciente. 

Era um caso complicado, câncer hepático em fase avançada. Ele se sentia muito bem apesar de tudo, estava confiante nos tratamentos e tinha uma positividade acima do comum, se conversássemos fora de um consultório oncológico não notaríamos a gravidade de sua doença a não ser por sua condição bastante emagrecida, que nos dava uma dica de que algo se passava. Sua cabeça o levava mais longe, o amor pela família e vida conduziam seus dias, mas alguma coisa o incomodava, era sua aparência. E, por isso procurou minha ajuda.

Chegou a minha sala animado, com sua filha por testemunha, queria ganhar peso para ficar mais forte e saudável. Conhecia suas limitações e buscava recuperar sua imagem de homem da casa, de força. Conversamos por cerca de 20 minutos sobre sua doença, ele sabia muito. Ambos chegaram bem preparados, sabiam quais seriam as etapas por qual poderia passar e como seguiríamos dali. Eles já conheciam o panorama completo, sabiam inclusive o que queriam que EU fizesse, desde possíveis efeitos hepáticos e intestinais à alteração do sono e paladar que vinha sentindo, então o interrompi por um instante, pois percebi que a conversa tomava um rumo ansioso demais.

Seu quadro era grave, todos sabíamos, deixei claro que seguiríamos as condutas com as mudanças necessárias para cada sintoma que ele viesse a sentir ao longo do tratamento. Todavia, não queria que  pensássemos em tudo de uma vez, era importante sentir e resolver o “problema” somente quando e, se, ele surgisse, e não sofrer por antecipação ou sugestionar o corpo à todos os possíveis sinais que um tratamento pode gerar. Não necessariamente se apresenta tudo, pensemos no corpo individualizado e assim, um tratamento único e exclusivo para cada pessoa, há seu devido tempo. Dar um passo de cada vez se tornaria mais importante no seu fortalecimento do que a enxurrada de informação toda há uma só vez.

O estresse e ansiedade gerados pelo “conhecimento” prévio do que poderia vir a acontecer, muitas vezes torna-se prejudicial ao seguimento saudável de tratamento a doença. A descarga emocional é fator de risco importante para complicações fisiológicas e agravamento de doenças. O estresse e ansiedade alteram secreções de neurotransmissores como serotonina e gaba que desencadeiam intrincados mecanismos fisiopatológicos somatizando sintomas à doença.

Neste momento achei por bem, mudar um pouco o rumo da conversa, tratei de explicar brevemente como funcionava o mecanismo neurológico e seu impacto psicoemocional para mais tarde falarmos nos alimentos que dariam suporte à sua melhora.

O hipotálamo possui um papel central em orquestrar uma resposta humoral e somática. Os neurônios hipotalâmicos secretam hormônio (CRH) que estimula a hipófise a secretar outro (ACTH), que por sua vez atinge a corrente sanguínea estimulando a glândula adrenal para liberação do cortisol, o hormônio do estresse, que atua sistemicamente incluindo a auto regulação pelo próprio cérebro. A exposição contínua ao cortisol, em períodos de estresse crônico, como o que vinha vivenciando, pode levar à disfunção e à morte dos neurônios apresentando falhas na capacidade de controlar secreção dos hormônios do estresse e de realizar suas funções de rotina. 

A serotonina é um neurotransmissor importantíssimo no controle da ansiedade, responsável por sensações de prazer, humor, bem estar, analgesia (importante para aquele momento de dor), melhora do sono e apetite que apresentavam–se prejudicados pela doença. Além dela, outro neurotransmissor envolvido neste processo é o gaba (ácido gama-aminobutírico), principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central, cujo efeito ansiolítico consiste em reduzir o funcionamento de grupos neuronais do sistema límbico e levar o corpo à um efeito de sedação (inibição de excitação e agitação).

A produção de serotonina, gaba e cortisol apresentam um vínculo direto de regulação, de tal forma que a produção de um tem implicações no aumento do outro. Todavia, se o fator estressor como a ansiedade (que vinha sentindo) for contínuo, provocará a depleção de serotonina e gaba por desequilíbrio entre sua síntese e degradação. 

Como tudo o que é produzido no corpo humano, a serotonina e gaba também são dependentes de alguns nutrientes específicos, dentre eles os aminoácidos triptofano e glicina respectivamente, de vitaminas do complexo B (B3, B6 e B9) que atuam como cofatores enzimáticos na conversão do aminoácido ao neuro hormônio m e de energia, sendo os carboidratos e minerais (como magnésio) fundamentais neste processo. Entretanto, quando ocorre uma alta concentração de stress e, portanto, de cortisol, a via bioquímica destes aminoácidos são desviadas (no fígado) para uma via pró inflamatória, o que diminui a oferta de triptofano para a síntese de serotonina ou de glicina para o gaba. 

Então chegamos à um ponto importante, em que a alimentação entraria como conduta estratégica, como modular e diminuir a ansiedade e influenciar um ciclo equilibrado de serotonina e gaba que geraria efeitos positivos no controle de stress e em seu tratamento. 

Como a serotonina e gaba são derivados de aminoácidos dependem não somente da oferta de substrato, mas das enzimas necessárias para esta conversão assim, o cardápio deve ser rico na ingestão de alimentos ricos em triptofano como laticínios; ingestão de alimentos fonte de glicina como peixes, ovos e lácteos; ingestão de carboidratos integrais das frutas e legumes, fontes de energia; ingestão de alimentos fontes de vitamina B6, B9 e B3 como vegetais verde escuros, feijões e  cereais e, ingestão de alimentos ricos em magnésio como os legumes, castanhas e chocolate amargo.

Além destes alguns fitoterápicos como a kava kava, valeriana, e chá verde que possuem fitoquímicos fundamentais (como a L Teanina do chá verde) que são agonistas do receptor de gaba, estimulando sua liberação e trazendo à tona a sensação de equilíbrio além de contar com efeitos antioxidantes importantes no controle do ambiente inflamatório que promoveria a doença.

Desta explicação mais 30 minutos se passaram, mas será que àquela altura de seu quadro clínico, somente um cardápio equilibrado que contemplasse todos os alimentos citados, incluindo outros importantes como fonte de antioxidantes, alcalinizantes e etc, seria suficiente para ele? Claro que não.

O cardápio e suas informações específicas era o que o paciente buscava, a “magia” dos nutrientes e seus ciclos metabólicos no combate do câncer. Eu estava ali para lhe dar e organizar as informações, contudo, meu papel se tornava mais amplo. Precisava pensar na alimentação como estratégia comportamental, tirá–lo de seu foco principal, a doença, trabalhar a base do comportamento psicoemocional frente à alimentação e foi assim que segui a consulta.

Pedi que seguíssemos ao jardim, nos sentamos num sofá ali estrategicamente colocado, pedi que olhassem as flores ao seu redor, as cores e respirasse fundo, que ficassem confortáveis. Só então, começamos a conversar. Deixei de lado doença e sintomas, queria falar sobre saúde. Conversar sobre suas preferências, o que realmente gostava, o que não gostava, o que ao longo de seus mais de 70 anos lhe havia deixado uma marca. O que lhe remetia ao conforto emocional como uma comida de vó, mãe, esposa ou qualquer outro momento que lhe marcara positivamente.

Assim, em clima mais calmo ele percebeu que muita coisa lhe trazia prazer ao paladar, lembranças interessantes de lanches da tarde na casa dos avós, uma pipoca de cinema ou mesmo broncas de seus pais hoje lhe traziam saudade. Alguns momentos especiais como a taça de vinho no final de noite com sua esposa e um especial jantar preparado por sua filha vieram à tona junto com a salivação estimulada por aquelas memórias.

Pronto! Eu tinha atingido meu objetivo, conhecer o meu cliente. Daí por seguinte iria trabalhar aquelas saudosas refeições (que fortuitamente muitas eram bem saudáveis), estimular a recriação daqueles ambientes como as simples refeições à mesa, em família, filmes regados à petiscos da tarde, adaptar alguns dos pratos mas, sobretudo oferecendo–os dentro de um contexto mais amplo com muitas outras opções saudáveis. Isso faria a diferença em seu estado emocional, apetite e favoreceriam sua adesão, ganho de peso e fortalecimento, minimizaria sua ansiedade e medo e, lhe trariam algum conforto para o enfrentamento maior.

Então mais 30 minutos se passaram sem sequer percebermos, entre risadas, boas lembranças, um momentâneo esquecimento da doença e suas consequências, sem nos lembrarmos de biologia, química ou nutrição propriamente, com um único e mais amplo foco, o conhecimento do básico necessário à sua saúde, o “estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de enfermidades” definido com perfeição pela OMS.

Infelizmente esta história teve um triste desfecho, soube por seu médico que viera a falecer pouco mais de um mês após sua visita. Como costume, encaminhei uma mensagem de condolências à família e como resultado obtive um retorno lindo de sua filha em agradecimento não a minha expertise em nutrição e oncologia, mas ao mais básico dos nossos conhecimentos: a atenção humana.

“Obrigada pelo carinho e profissionalismo com o qual atendeu meu pai quando estivemos no consultório. Por vários dias ele me perguntava se eu tinha falado com você, pra dizer que ele estava começando a dieta... sei que a consulta se estendeu com as lembranças dele das comidas da minha avó, e você o ouviu com atenção. (…) sei que a memória afetiva num momento como o dele era importante para que voltasse a se alimentar bem, e você passou essa atenção a ele. Obrigada, de coração.”

Embora com sentimento de pesar, finalizei aquele prontuário feliz, pois aquelas palavras me fortaleceram a continuar o caminho de apoio ao que chamamos de olhar holístico da saúde, pois antes de ser um bom profissional, temos que ser um melhor ser humano.

 

Andrea Alterio

Andrea Alterio

Andrea Alterio é Nutricionista formada na Universidade São Camilo (SP) com especialidade em Oncologia Multiprofissional pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Mestre em Nutrigenética e possui outras 4 especializações em Nutrição Clínica, com ênfase em Metabologia e Bioquímica Médica, Nutrição Funcional, Obesidade e Esportes além de um Master em Nutrição Humana comportamental (coaching nutricional) em Roma, Itália.  Atualmente trabalha em consultório clínico, em São Paulo e Interior.

  • IKCC - International Kidney Cancer Coalition
  • World Ovarian Cancer Day
  • WAPO - World Alliance of Pituitary Organizations
  • The Carcinoid Cancer Foundation
  • Alianza GIST
  • The Life Raft Group

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